Artigos em jornais

Como é isto possível

Maio 2002

Primeiro que tudo, não defendo a ideia de que Portugal esteja em condições de organizar eventos da envergadura de um Europeu de Futebol. Mas, a ir organizar, como é possível que com a mudança nas autarquias implicadas nessa organização venham agora a lume situações que à partida inviabilizam a sua realização?

Não podemos agora colocar à discussão a legitimidade dos investimentos necessários. Claro que outros seriam mais prementes, mas o abandono da realização do evento trará a Portugal custos muito maiores.

Como é possível acontecer o que se passa em Lisboa, onde o Benfica inicia obras de grande vulto no seu Estádio baseado em promessas que não foram ratificadas pelo órgão autárquico competente, a Assembleia? E como é possível vir dizer que se acordou uma situação com uma pessoa e ela agora vir dizer que não acordou nada do que os dirigentes afirmam?

Será que os senhores que gerem o Clube não sabiam que não poderiam dispor de milhões de contos — de todos nós — sem que para isso tivessem as coisas escritas? Ou pretendem forçar a autarquia a pagar os devaneios daqueles que não sabem esticar o pé à medida do lençol?

Os atuais Presidentes de Câmara do Porto, Coimbra e Faro também trouxeram a público informações que provavelmente inviabilizaram a construção dos Estádios nos seus concelhos, através de preocupações relacionadas com o apoio financeiro à iniciativa. Rui Rio disse até que era impossível, para ele, inteirar-se concretamente do que se estava a passar, já que cada um dos setores técnicos da CMP sabia exatamente das suas atribuições, mas a inexistência de um órgão coordenador da participação da Câmara tornava o estudo de viabilidade impossível.

Será que os anteriores autarcas andaram a brincar com o assunto, realizando um trabalho em cima do joelho, assumindo compromissos sem os estudos prévios correspondentes, sem assegurar as verbas necessárias e principalmente sem consultar os órgãos competentes e democraticamente eleitos?

Que não se realize o evento, acho muito bem, mas essa é tão só a minha opinião. O que neste momento está em jogo não é futebol, nem a opinião de quem quer que seja: é o prestígio de um País. E isso não é assunto para brincadeiras nem birras de meninos mimados.

Se alguém assumiu responsabilidades sem para isso estar mandatado, que se chamem os responsáveis. Mas que se continuem as obras, a bem do nosso prestígio.

António Guimarães