2001... 2002... Ano Novo, Ano Velho
2001 naturalmente no fim
Há uns anos, quando o ano 2000 era quase um mito, dizia-se que o mundo ia acabar. Alguns, mais cuidadosos, afirmavam que acontecimentos terríveis marcariam os primeiros anos do novo século. Muitos de nós ouvíamos essas previsões sem dar grande importância. Mas o mau presságio acabou por acontecer: 2001 foi para muitas famílias, regiões e países um ano trágico, cujas consequências se prolongarão por muito tempo.
Tão cedo esqueceremos os trágicos acontecimentos de 11 de Setembro! Quem pode ficar indiferente ao que depois aconteceu no Afeganistão? Ou ao que se passou no Peru, na Austrália, no Brasil alagado, na Argentina à beira de guerra civil, ou na África do Sul onde vender uma coca-cola pode equivaler a uma bala na testa? “Dramático e confrangedor” é o sentimento comum quando se pensa em 2001.
A crise na economia mundial atingiu todos os países. Portugal ficou em último lugar na Comunidade Europeia. Não soubemos ultrapassar a crise anunciada logo nos primeiros meses do ano. Tivemos um governo que “desenrascava” situações e um Primeiro-Ministro que não esteve à altura do cargo. Foi este mesmo Primeiro-Ministro que, no Natal de 2001, numa entrevista à SIC, afirmou que estava tudo preparado para que Portugal chegasse aos lugares cimeiros da Europa — bastava relançar a economia que ele próprio tinha destruído com uma governação “em cima do joelho”.
2001 foi o ano das fundações privadas a funcionar à margem da lei, das remodelações governamentais, dos orçamentos retificativos e das leis aprovadas sem votos suficientes. Foi o ano em que um governo levou para a Assembleia da República um queijo como solução para passar uma ideia e um orçamento que sabia ser o pior possível. Um ano que o PS terá rapidamente de esquecer. António Guterres fez a única coisa que lhe restava: sair. Mas podia tê-lo feito de modo pacato, assumindo erros, sem tentar salvar a imagem.
Foi também um ano triste na cultura: perdemos Jorge Amado, George Harrison e Gilbert Bécaud. A 20 de Agosto, os portugueses ficaram chocados com a horrível morte de seis empresários em férias no Brasil, assassinados por uns “tostões”. A 4 de Março, Portugal descobriu que afinal era um país do terceiro mundo: uma viagem de diversão terminou no fundo do Douro, ceifando dezenas de vidas por descuido de quem devia supervisionar. Nesse dia também percebemos que as televisões não olham a meios para subir audiências.
Na Suíça, a morte de uma criança de 16 meses, filha de uma portuguesa toxicodependente, trouxe críticas pouco lisonjeiras ao nosso país. Pouco depois, um suíço entrou armado no Parlamento de Zoug, matando 14 pessoas e ferindo 10, suicidando-se de seguida. Foi em 2001 que o mundo conheceu os mistérios do genoma, um avanço gigante para entender as nossas origens, mas também uma incógnita: a clonagem humana. Nesse ano sobreviveu o primeiro ser humano com coração mecânico, mas morreu em dezembro. Ainda assim, foi um enorme avanço científico.
Muito mais aconteceu, mas muito mais irá acontecer em 2002. A Palestina, Israel e o mundo árabe continuam a ser palco de conflitos que não se resolvem em um ano. Cerca de 304 milhões de europeus disseram adeus às suas moedas nacionais, abraçando a moeda única. Só o tempo dirá se Portugal se afundará num mar de incertezas, subjugado pelo “Euro Alemão”.
No dia 1 de Março de 2002 termina a circulação legal das moedas nacionais nos estados membros. O escudo português encerra um ciclo de 91 anos. Para nós era o “escudo”. Para os franceses, termina um ciclo iniciado em 1361 com o primeiro franco. Mais antigo ainda é o dracma grego, com mais de 2600 anos de história, símbolo da antiguidade e mãe de todas as moedas.
Coisas dos tempos que correm: ano que termina, ano que começa. Mas este que terminou é, sem dúvida, portador de recordações boas e más. O novo é capicua...
António Guimarães