Artigos em jornais

“Você não percebeu”

Janeiro 2001

Se tivéssemos dado atenção aos artigos de opinião sobre Durão Barroso que a nossa imprensa diária e semanal publicou há alguns meses, ninguém teria apostado um tostão nele. Tal era o chorrilho de textos e declarações em que o líder social-democrata era apontado como incompetente, entre outros atributos pouco lisonjeiros. Agora, é “o maior” e ocupa o cargo de Primeiro-Ministro de Portugal.

Quanto a agradecimentos, Durão Barroso pode dirigi-los sobretudo a si próprio. Ajudas teve poucas, revezes foram muitos. Tal como o camaleão, todos temos o direito de mudar de cor, de opinião, de carro ou de casa. Também nos assiste o direito de dizer o que nos apetece, independentemente dos resultados. Mas, quando já se conhece o vitorioso, é fácil dirigir as “festinhas” às costas certas.

Tenho-me divertido a reler alguns artigos do ano passado e a compará-los com o que hoje se escreve sobre Durão. É notável o desplante de certas pessoas que conseguem afirmar que não disseram, ou que disseram mas não era bem aquilo que queriam dizer. A grande maioria dos comentadores mais conhecidos da nossa imprensa — alguns misturados com políticos de vários quadrantes — colocava Durão Barroso num patamar de competência e inteligência pouco invejável. Alguns até bradavam aos céus pelas enormidades que dizia. Hoje, a conversa é outra: enveredaram por um posicionamento de futuro compadrio interesseiro, que os levará a receber as benesses de um governo laranja — que tanto pode ser doce como amargo, depende da árvore, da laranja, do sumo.

As razões desta súbita mudança de opinião não sei nem me interessam. Não deixarei de os ler, mas fico céptico: questiono-me se não estarei a ler o produto de uma encomenda, de um interesse encapotado, de tudo menos da opinião genuína de quem assina.

Eu, por mim, mantenho-me como há um ano atrás. Durão Barroso não é pessoa do meu agrado, nem agora conseguiu mudar seja o que for na minha opinião. Acredito, no entanto, que não é difícil ser melhor do que alguém que se orgulha de ter pertencido ao pior governo desde o 25 de Abril e que, no debate, demonstrou que até na sua área profissional pode ser “abatido” por um inexperiente.

Estamos mal servidos de políticos. Depois do espetáculo do debate e da tristeza dos comentários das “cabecinhas”, fiquei com a certeza de que nem um nem outro. Um não admite ao outro, o outro abana a cabeça e não diz nada. Vai daí, os espertos que percebem de tudo e falam de tudo desatam a comentar, num chorrilho de afirmações cujo único fito é agradar a quem ganhar.

A verdade é que tanto me faz: ganhe um ou ganhe outro, nenhum encaixa o perfil de Primeiro-Ministro. E quanto a vitórias em debates, ainda me hão de explicar o que isso significa. Será que tem alguma coisa a ver com sondagens? Ainda falam mal dos futebolistas… até houve quem comparasse “aquilo” a um jogo de futebol, com penáltis e tudo!

António Guimarães