Artigos em jornais

Temos o que queremos

Abril 2001

O Algarve é uma região com a importância que tem — nem mais um centímetro para a esquerda ou para a direita. Quem determina essa importância somos nós, os algarvios. É neste contexto que podemos afirmar: temos o que queremos, e não o que merecemos. Falhamos, porém, em velar pelos nossos interesses, talvez pela escolha das figuras que nos representam, nunca tendo havido coragem de dizer: “Não, vocês não nos interessam.”

Um dos casos mais flagrantes surge quando um político algarvio começa a falar demais sobre os interesses da região. Ao sair dos parâmetros definidos pelo poder central e pelos interesses que representa, logo se anuncia a sua subida a um cargo nacional. Cala-se a voz. Os partidos têm sido espertos: sabem segurar o Algarve à custa das nossas necessidades, abafando quem se aproxima de dar um verdadeiro murro na mesa.

Também a nível local isto acontece. Todos sabemos que Carlos Matos votou sozinho a seu favor na escolha do candidato do PS à Câmara de Lagos, sendo por isso excluído pelas cúpulas locais de defrontar José Valentim nas próximas eleições. Havia que o calar, ou talvez consolar: inventou-se um lugar para o colocar num instituto ou algo semelhante. Mais um “boy” para um qualquer “job”.

Não parece convencido ainda, a julgar pelos comunicados anónimos que surgem — uns denegrindo o substituto, outros lembrando feitos da oposição e do tempo de deputado. Mas para lá caminha. E preocupa: se não serve para presidente da Câmara de Lagos, como pode servir para presidente de um instituto?

Já há muito se dizia que Carlos Matos não tinha capacidade para devolver a autarquia ao PS. Não é de agora a luta de interesses dentro do partido em Lagos. O que não se entende é como o PS alimentou intenções e esperanças sem aproveitar as capacidades do então deputado para lançar uma candidatura forte, com uma operação de marketing capaz de fazer tremer as hostes laranja.

Analisando com pormenor, a mesa das decisões rosa talvez não esteja à altura de assumir o comando da autarquia. Os jogos de poder jogam-se às escondidas dos eleitores — isso sabemos. Mas também sabemos que têm de ser claros internamente, não protagonizados por individualidades isoladas. Precisam de uma força política coesa, o que não parece estar a acontecer no PS. Se o PSD souber aproveitar este erro, não haverá candidato capaz de bater José Valentim.

Muito se falou das hipóteses do PS para candidato. Falava-se de pessoas, nunca de projetos. Verdade seja dita: nem PS, nem PSD, nem os outros dois partidos apresentaram projetos. Quanto a nomes, Júlio Barroso já não é segredo. Aguarda a resposta de José Apolinário quanto às condições impostas para aceitar candidatar-se em Faro. Está tudo claro: será ele o candidato.

As negociações fizeram-se no escuro, sem certezas de que conseguiria formar uma equipa capaz de conduzir a cidade a bom porto e refazer o que está mal. Mas isso pouco importa: interessa é que haja um nome. Já há. Certo é que sozinho não irá longe, tal como Valentim, que comandou operações sem equipa, limitando os projetos às capacidades de uma só pessoa. O mal de muitas autarquias é dependerem de nomes e não de projetos.

O benefício da dúvida pode ser dado a Júlio Barroso. Mas com tanto segredo, tanto tempo, tanto sussurro, tanta reflexão, não auguro nada de bom para a cidade. Júlio Barroso é uma figura meio apagada no espectro político local, havendo até quem diga não saber se é de direita ou de esquerda. Esse recato até lhe tem caído bem, podendo ser uma mais-valia. Mas ao não se saber das suas tendências, também não se conhecem as suas capacidades de apresentar o projeto que Lagos precisa e de o liderar com uma equipa coesa.

A cidade vive há anos num marasmo. Os projetos resumem-se aos horrores da Meia-Praia, onde parecem existir obras ilegais que continuam a crescer e até são visitadas por secretários de Estado. Cresce a desorganização urbanística: prédios de vários andares a menos de vinte metros de moradias; obras públicas que se arrastam por meses, sem sinalização adequada, revelando incapacidade de pensar nos utilizadores.

Torna-se cada vez mais necessário abandonar a política de gestão centralizada numa só pessoa. Já se viu que não resulta. Grave, grave é que temos o que queremos — mesmo sabendo que é mau. Temos sido mal tratados e constantemente relegados a segundo plano. Esta verdade já foi reconhecida várias vezes, mas sem resultados aparentes. Pelo andar da carruagem, tudo parece ficar na mesma.

António Guimarães