MST (Carta) – Agosto 2001
2001
Poucas são as tuas crónicas que deixo de ler, e poucas as vezes em que não faço minhas as tuas palavras. É um direito que o leitor conquista quando se preocupa em conhecer a opinião dos fazedores de opinião.
Lagos… Lagos do tempo em que, na Meia Praia, em pleno verão, havia pouco mais de uma dúzia de carros e outras tantas pessoas a passear pelas ruas, olhando as montras desatualizadas de comerciantes famintos por gente nova que trouxesse dinheiro fresco. Essa Lagos perdeu-se — e sabíamos que teria de ser assim. O que não sabíamos era que a confiança depositada nos governantes nos conduziria a uma desenfreada fome de betão, de lucro fácil e, sobretudo, à ascensão dos “patos bravos”: de cu sentado em “Mercedes” do último modelo, “engenheiros” do betão, vendedores de propriedade horizontal, à custa do bem-estar de quem escolheu esta terra para viver e criar os filhos.
Eu escolhi a Lagos de que te recordas, não esta que ficou nas mãos dos “patos bravos”. Escolhi uma Lagos onde uns tantos “Migueis” vinham de férias e eram bem-vindos. Uma cidade que precisava de crescer e modernizar-se, sim, mas com inteligência, com saber, dedicada ao lacobrigense — não esta, de betão, desmazelo e desprezo pelo bem-estar, feita para o forasteiro.
Ainda há poucos anos se dizia que Lagos estava no fim do mundo, que aberrações como Armação de Pêra ou Monte Gordo não tinham cabimento por estas paragens. Agora, basta olhar para ver o que se tornou.
Recordo a tua casa de forma curiosa: via-se do mar, quando no meu barquinho ia ao besugo. As casas, as árvores, os sinais eram referências claras. Muitas vezes dizia: “Oh pá, olha para a casa do Miguel, não costuma estar ali?” Hoje já nem sei qual é — se por não ir tantas vezes ao mar, se por estar rodeada de outras. Seja como for, perdi-lhe o rasto.
Mas o que me leva a escrever-te — penso que pela segunda vez, se a memória não me falha — é a tua afirmação de que “nunca ninguém amou esta cidade como eu”. Não podes dizê-lo. Muitos são os lacobrigenses que amam Lagos. Pouco me importa quem sejam; importa-me dizer que abdiquei de uma vida na capital, com um excelente emprego, para ficar em Lagos. Tenho lutado, ingloriamente bem sei, por Lagos e pelo Algarve. É injusto que uses a tua posição de fazedor de opinião para afirmar que não há lacobrigenses que amem Lagos como tu.
Conheço o mar de Lagos como alguns pescadores me ensinaram. Conheço os buracos do polvo, do besugo, do pargo, os areais do choco, as estradas das freguesias, os recantos do concelho, as rochas, as furnas, os buracos. Não melhor do que ninguém, mas certamente melhor do que tu. São quarenta e muitos anos a partilhar com Lagos um amor que nunca me faria construir uma casa no Alentejo.
Tu melhor que ninguém sabes quão difícil é travar o crescimento descontrolado de um lugar, sobretudo quando há praia e mar. Sabes que o poder político foi entregue a mãos pouco sábias, com visões aberrantes do que deveria ser um crescimento controlado e dedicado ao cidadão. Sabes também que o poder político é dominado pela sua pior vertente: a sede de poder de quem nunca foi nada e precisou da política para ser reconhecido por um MST que escreve bem e aparece à frente de todos sem saber quem o lê.
Recuso-me a ser mera estatística. Não vagueio desinteressado. Luto, ainda que a minha voz não mova televisões. Mas recuso-me a calar. Quer leias ou não, fica dito: não amas Lagos mais do que eu. Amaste tanto como eu, sim, mas com a diferença de que eu ainda amo.
Um abraço.
António Guimarães