E a 125 ficou de novo na gaveta
Maio 2001
Por António Guimarães
Viró disco e toca o mesmo. Com este governo não há nada a fazer: teremos de nos habituar a ser a região mais utilizada do País, sem que disso resultem benefícios para quem cá vive.
Um amigo jornalista dizia-me, numa dessas noites de copos misturados com política — o melhor para esclarecer ideias — que eu sou demasiado agressivo na defesa dos interesses da região e que não consigo pensar ao nível nacional. Concordo em parte, mas não aceito a crítica. A minha agressividade resulta daquilo que vejo e sinto por esse País fora. Quando volto ao Algarve, a realidade é confrangedora.
Há poucos dias, o ministro Ferro Rodrigues anunciou que o governo iria disponibilizar cerca de 20 milhões de contos para arranjos em estradas e pontes, sendo que nas pontes o trabalho seria mais de inspeção do que de reparação. Este anúncio, supostamente, é consequência da tragédia de Entre-Rios. Dou os parabéns ao ministro por, em tão pouco tempo (ou será já tarde?), avançar com uma medida tão popular.
Mas, analisando a lista divulgada pela Lusa, percebe-se que a intervenção se concentra na Região Centro e Norte, onde há forte presença de eleitores do PS e uma população mais vasta do que no Sul. Conclui-se, então, que a intervenção governamental começou a obedecer à lógica partidária. E eu não entendo como ainda nada foi feito para resolver o enorme problema nacional que é a Estrada Nacional 125.
Será que este é apenas um problema regional? Estará o Estado indiferente aos numerosos acidentes que ali acontecem, fruto de uma estrada ultrapassada pelas necessidades? Em Entre-Rios morreram cerca de 70 pessoas. E na 125, quantas já morreram? Quantas ficaram com a vida desfeita? E as filas intermináveis junto a semáforos mal colocados? E as vilas, aldeias e lugares atravessados, colocando em perigo os seus habitantes?
Será lógico nada se fazer e ficarmos eternamente à espera que se cumpram promessas? Terão mais direitos, num Estado de Direito, os utilizadores das estradas arrasadas pelos temporais do que aqueles que veem as suas famílias destruídas pela incúria de quem deveria zelar pelo seu bem-estar?
Este governo sabe bem o peso eleitoral do Algarve. Sabe que, ganhe o PS ou o PSD, pouco se altera nos resultados globais. E sendo assim, estamos condenados: nunca teremos o respeito de quem nos governa.
As estradas danificadas pelos temporais têm de ser arranjadas, as pontes têm de ser vistas, a Expo 98 teve de ser feita, o CCB teve de ser construído, o Metro do Porto teve de existir, os estádios tiveram de ser prometidos — tudo à custa também do Algarve. E todas as promessas que Jorge Coelho fez voltam a ficar arquivadas numa qualquer gaveta obscura.
Até quando iremos aturar esta falta de respeito? Até ao próximo verão, quando cá vierem, emproados de toalha ao ombro, fazendo promessa atrás de promessa — todas para não serem cumpridas.
António Guimarães