Artigos em jornais

Fotografia

Janeiro de 1991

É quase impossível resistir à vontade de fotografar quando temos uma máquina nas mãos. As cores que nos rodeiam, os detalhes da natureza que chamam a atenção, são irresistíveis para quem sente paixão pela imagem. O olho humano capta o ambiente de forma mais completa do que qualquer máquina, mas o fascínio das cores e das formas transforma o ato de fotografar numa emoção única.

Uma simples mancha de cor sobre papel fotográfico pode criar ou destruir uma imagem. A harmonia dos espaços, o enquadramento, os volumes e a composição são elementos que fazem da fotografia uma verdadeira criação. Em suma, o equilíbrio entre imagem e ambiente é essencial para boas fotografias. O gosto é pessoal, mas a reação humana às cores e às harmonias é semelhante, tornando quase universal a distinção entre boas fotos e as vulgares.

Retrato

O retrato é, na minha opinião, a forma de fotografia que mais exige “bom gosto”. Muitos fotógrafos de renome já tentaram seguir esse caminho, mas mesmo profissionais acabam por obter resultados desastrosos. A iluminação perfeita, a maquilhagem adequada, a decoração do espaço e tantos outros detalhes são difíceis de controlar e, por vezes, produzem imagens arrepiantes.

As fotos que apresento são retratos instantâneos de rosto. Há quem considere este tipo de fotografia o verdadeiro retrato, em oposição ao produzido em estúdio. O retrato de estúdio, tal como a fotografia de moda, deve ser realizado por equipas especializadas e altamente profissionalizadas.

Sempre gostei de apreciar retratos, mas nunca de os fazer. Exigem mais do que eu próprio podia dar. O instantâneo, por outro lado, é a fotografia que mais me surpreende. Quantas vezes olhamos para uma foto e descobrimos um detalhe que não vimos ao fotografar? Esse fascínio é o que me prende e me faz andar sempre com uma máquina. Preparar uma fotografia com antecedência pode trazer satisfação, mas nunca dará a surpresa do resultado inesperado.

Aprendizagem

Aprendi a fotografar acreditando que as boas imagens nascem no visor. Um fotógrafo pode ter o melhor equipamento do mundo, mas se não souber enquadrar ou posicionar a luz corretamente, a obra perde valor. É o que chamamos de “olho fotográfico”.

Quem não nasce com ele pode cultivá-lo: basta ver muita fotografia. Com o tempo, percebi que não se deve disparar sem pensar se tudo está bem enquadrado. Caso contrário, é filme desperdiçado e, muitas vezes, desmotivação.

O Nu

A fotografia de nu é muitas vezes confundida com imagens obscenas. Michael Boys, fotógrafo, dizia que é incrivelmente difícil fotografar uma mulher nua e obter um resultado excitante, artisticamente belo e aceite tanto por homens como por mulheres. Nada mais verdadeiro.

Transmitir apenas a ideia de sexo numa fotografia é fácil: basta centrar o objetivo nesse detalhe. Mas harmonizar sexualidade com beleza, sensualidade com composição e equilíbrio transforma o nu numa arte indiscutível.

Hoje existe uma clara diferença entre fotógrafos de “sexo” e de “nu”. Essa distinção é criada pelos próprios profissionais, embora muitos realizem ambos os trabalhos — talvez por razões financeiras

António Guimarães